Cauê Oliveira
Cauê Oliveira|Sep 11, 2026 16:42
Já que hoje não teremos vídeo, aqui vai um post sobre inflação americana e minha visão sobre o próximo FOMC.🧵 O dado de inflação que fez o mercado voltar a precificar alta de juros em setembro foi, em boa parte, a sua conta de celular. Não estou sendo irônico. O núcleo do CPI americano subiu 0,29% em agosto. Telefonia móvel e hotelaria responderam por 14 desses 29 pontos-base. Todo o resto da economia americana, somado, deu cerca de 15. Duas das categorias mais ruidosas do índice fizeram metade do trabalho sozinhas. No supercore foi pior. Alta de 0,51% no mês, com 29 pontos-base vindos só de telefonia. Mais da metade de um único item. No headline, que subiu 0,40%, a energia sozinha entregou 15 pontos-base. Quase 40% da alta. E é aqui que a conversa deixa de ser sobre política monetária. Energia não está subindo porque a economia americana está fervendo. Está subindo porque o Estreito de Hormuz segue estrangulado. O fluxo pelo estreito está em torno de 6 milhões de barris por dia, cerca de 30% do nível pré-conflito. O Brent fechou acima de US$ 101 essa semana, o maior nível desde maio. Então a pergunta que ninguém está fazendo em voz alta: Quantos pontos de juro o Fed precisa subir pra reabrir Hormuz? Nenhum. Juro não move navio. Aperto monetário funciona contra inflação de demanda. Contra choque de oferta, ele entrega recessão sem devolver um barril ao mercado. E mesmo que quisesse insistir, o espaço é estreito. Com dívida bruta acima de US$ 40 trilhões, cada ponto de juro adicional vira conta de serviço da dívida que o Tesouro paga no ano seguinte. O próprio aperto que o Fed precisaria fazer está sendo feito pelo mercado de treasuries, principalmente na ponta longa. Encarecendo custo de capital de longo prazo. Do outro lado, com headline em 3,4%, cortar também não está na mesa. O Fed está preso no meio. E banco central preso é banco central que para de fazer preço. Agora suavize o ruído do dado. A média de 3 meses do núcleo está em 0,16% ao mês. A de 6 meses, em 0,21%. Anualizado, 1,9% e 2,5%. Um print barulhento não cria tendência nova. O mercado ainda vai operar narrativa hawkish por algumas semanas. Isso é inércia de posicionamento. Depois vai descobrir quem realmente está no comando da liquidez marginal. O Tesouro. Composição de emissão, recompra de dívida longa, gestão de duration. É daí que sai o dinheiro que chega no preço dos ativos, não da taxa de juros. E quando a liquidez volta a se expandir num mundo onde o lado da oferta está quebrado, o capital migra pra escassez antes de migrar pra rendimento. O ouro já entendeu isso em agosto, com US$ 17,9 bilhões entrando em ETFs num mês só. Bitcoin é a mesma tese com oferta ainda mais inelástica.(Cauê Oliveira)
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